Como oito estudantes trouxeram políticos para debater em um país dividido pela política

Na graduação, eu fiz o curso de Ciências Moleculares na USP. Naquela época, a grande polarização política que existe no país agora (2018) estava ficando mais e mais clara e  ela podia ser vista dentro e fora da universidade. Dentro da universidade,  eu não conhecia um grupo onde a discussão fosse baseada em evidências e percebi que eu, como muito dos outros estudantes,  não estava preparado para discutir política e não sabia da extensão das conseqüências da polarização política.

Eu lembro de uma amiga dizendo  que estava andando na rua e então empurraram e cuspiram nela porque ela estava usando um broche de um partido tal. Eu também tinha visto algumas dicussões dos estudantes, mas elas duravam horas e horas e muitas vezes só quem ficava até o final podia votar. Normalmente, essas dicusssões não eram estruturadas e a diversidade de opiniões era baixa, mesmo assim as pessoas sempre discordavam. Algumas boas ideias não eram muito bem expressas e eram ostracizadas, enquanto alguma ideias ruins eram levadas adiante.

E, mesmo insatisfeito, eu não me via como uma pessoa bem informada o suficiente para tomar decisões sorbe coisas importantes que estavam acontecendo na universidade e no país. Isso era extremamente preocupante, e eu vi que os outros alunos também não tinham um método para coletar informações de diferentes fontes, analisá-las e tomar decisões com segurança suficiente para questionar os outros estudantes e eles mesmos.

Então, conheci um grupo que estava tentando iniciar um grupo de debate na universidade.

No Brasil, esse tipo de grupo não era muito conhecido. O fundador do grupo na universidade foi Henrique Vitta, que se deparou por acaso com grupos de debate de outras universidades que foram criados um pouco antes. Vitta estava fazendo Ciências Contábeis e foi presidente da FEA Junior, uma das poucas empresas no Brasil administradas por graduandos com um lucro anual de mais de R $ 1 milhão. A ideia de introduzir debates nas universidades brasileiras foi originada da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), e em seguida da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No início, o grupo de debate na universidade era pequeno, muitas pessoas vinham em uma das reuniões que tinha um tema interessante, mas depois não voltavam para as outras reuniões. Como não éramos um grupo oficial da universidade, tínhamos que pagar todas as despesas com nosso próprio dinheiro e fazíamos reuniões em espaços abertos, porque não podíamos reservar uma sala na universidade. Um professor de filosofia contactado pelo Henrique, o professor Cícero de Araújo, ajudou a lidar com as formalidades. Então, viramos um projeto oficial da universidade. Isso facilitou a utilização de salas no campus, mas os nossos recursos ainda eram extremamente limitados.

 

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A Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, onde o USP | Debate iniciou as reuniões. Não podíamos reservar salas da universidade, por isso usávamos o espaço aberto do prédio. O local era aberto e movimentado, por isso as reuniões eram muitas vezes interrompidas.

Por mais de um ano, tentamos reunir mais e mais pessoas, indo às salas de aula e convidando os novos alunos. Mas os alunos, como esperado, nunca ouviram falar de debate competitivo. E, assim que explicávamos o que era o debate competitivo,  os alunos demonstravam deconfiança.  Eu imagino que parte disso é porcausa da forma como o debate era mostrado na televisão.  Além disso,  nós usávamos um modelo de debate em que as pessoas são estimuladas a fazer  exercício de defender uma opinião oposta àquila em que elas acreditam. E isso é um desconforto tamnho que a maioria das pessoas relutava em tentar. Quando eu fui para as salas de aula, as pessoas sussurravam: “Deus me livre, alguém me ouça defendendo o político XXX” ou “Como eles podem decidir quem ganha o debate. É sempre subjetivo! ”.

Quando esse tipo de coisa acontecia, eu tentava explicar que a nós não defendíamos ideias que vão contra  princípios éticos, e que nós só discutíamos ideias que tinham prós e contras razoáveis. E que existem maneiras objetivas de avaliar a qualidade de um debate. De qualquer forma, nós tivemos que lutar contra o padrão que os políticos definiram sobre o que era o debate.

Com o passar dos meses, nosso grupo estava ficando cada vez menor. Tivemos boas pessoas chegando, como Bianca Checon, aluna de doutorado, que no futuro seria a nova presidente do USP | Debate. Mas , pelo baixo número de gente participando e a frustração que isso causava, houve uma disputa entre os 3 fundadores do grupo. “Onde é que a gente errou em trazer pessoas?”. As acusações começaram e os fundadores da USP | Debate se dividiram em dois.

Henrique Vitta continuou a liderar um dos grupos, mas durante muito tempo o projeto pareceu fadado ao fracasso. Nós  não só tínhamos dois grupos, mas tínhamos dois grupos que competiam para se chamar USP | Debate. Com o passar do tempo, um dos grupos se dissolveu e o USP | Debate recomeçou com novas pessoas.  Mas até aí tínhamos perdido quase todo o progresso que feito até então, já que muitas pessoas saíram por causa do ambiente de conflito. Eu me lembro que às vezes nós tínhamos reuniões com 2 ou 3 pessoas, mas eu sempre pensava nas reuniões como uma sessão de estudo, então  continuei indo, apesar de estar desapontado com o que o USP | Debate poderia ter sido.

Com mais trabalho de divulgação, reunimos um núcleo de 8 pessoas que sempre vinham às reuniões: Henrique Vitta, Bianca Checon, Felipe Bragança, Lucas Silva, Bruno Fochesato, Renato Bispo, Gabriel Vieira e eu (Marcos Masukawa).

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Depois da Faculdade de Arquitetura, as reuniões do USP | Debate foram realizadas na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Henrique Vitta e Bianca Checon conseguiram uma sala no subsolo. O prédio era ótimo, e a gente encontrou um lugar perfeito para nossas reuniões. Mas as pessoas ainda não estavam vindo.

Um dia, do nada, Henrique Vitta propôs que nós fizessemos um debate com os candidatos a prefeito de São Paulo

A ideia parecia absurda, nós não conseguíamos a nem trazer alunos para o nosso grupo! Como é que nós íamos convencer os políticos mais importantes do país a vir? Além disso, Henrique Vitta, que liderava o debate da USP até esse momento, teve que sair para trabalhar para o outro lado do país. Seríamos apenas 7 de nós.

Ainda assim, acabamos acreditando na ideia, ou como Bruno diria mais tarde, “a gente fingiu que acreditou”. O Henrique nos convenceu  dizendo: Se não der certo, não deu, mas se desse, seria um jeito de chamar a atenção do reitor,  conseguir um bom espaço para nossas reuniões, talvez um pouco de dinheiro para viajar para competir. E, mais importante, mostrar que os políticos também podiam ter um debate produtivo se nós estabelecessemos um ambiente para a conversa.

Só a Bianca e eu éramos membros “originais” do grupo. Antes da partida de Vitta, nós três decidimos que Bianca deveria ser a presidente do grupo e essa foi a decisão certa. Com os novos membros, a gente decidiu chamar nosso debate com os candidatos de “Jornada eleitoral”. Mas o evento ainda parecia completamente inviável. Então, nós tivemos a ideia de tentar uma parceria com a rádio universitária, a Rádio USP. Dessa forma,  poderíamos usar o fato de que a Rádio USP era uma instituição oficial da Universidade e poderíamos fazer reserva de espaços, além disso, o áudio do debate com os candidatos ia ser profissionalmente gravado e transmitido, tornando o evento mais atraente para os candidatos.

O Prof. Cícero nos ajudou  a conseguir a reunião com a Rádio USP. Depois da reunião, foi decidido que eles perguntariam aos advogados da universidade se tudo bem com o evento. Nós não tínhamos pensando nisso até então, mas as leis sobre campanha eleitoral são extremamente rígidas e nós não sabíamos muito sobre elas.

Os advogados nos disseram que o que queríamos era possível com uma condição

Nosso plano original era trazer 4 ou 5 candidatos para um debate semelhante ao da televisão, mas isso não era permitido porque significaria que estávamos usando os recursos públicos para favorecer alguns dos candidatos. Mas os advogados também disseram que, se nós convidássemos todos os candidatos, não seria um problema. No entanto, isso significava que precisávamos inventar um formato de debate completamente novo. Um debate com um número tão grande de candidatos nunca tinha sido feito na televisão ou no rádio. E tínhamos de fazer isso de uma maneira justa de acordo com a lei … ou correr o risco de um processo. Então, decidimos que íamos chamar todo os candiatos mesmo. E com isso saímos correndo para a maratona de chamar todos os 11 candidatos.

Essa maratona ia durar 2 meses. Nós começamos a chamar os candidatos e no começo fomos ignroados.  O Bruno Fochesato, o Lucas Silva e a Bianca Checon foram responsáveis ​​por chamar os grupos de PR dos candidatos. O trabalho foi exaustivo e eles tiveram que fazer ligações e enviar e-mails por meses sem parar até horas antes do dia para que o maior número de candidatos viesse. De acordo com o que osadvogados disseram, se o candidato se recusasse, a gente ainda podia realiza o evento, mas precisava de um documento oficial para provar que o candidato não estava disposto a comparecer, o que também foi difícil de conseguir com alguns candidatos. Além disso, precisávamos sortear o horário dos candiatos para não favorecer um ou outro.

Por causa da Radio USP, conseguimos reservar o melhor auditório da Universidade, o Centro de Difusão Internacional. Mas isso foi apenas uma parte do desafio. Nos meses antes  do evento, tivemos de fazer  panfletos, cartazes, enviar e-mails, telefonar, colar cartazes em todo o campus, planejar cada passo do grande dia do debate em um formato que nunca foi feito na TV ou no rádio. Sem esquecer que  ainda éramos estudantes e tínhamos que assistir às aulas e fazer provas enquanto isso.

Para mim, grande parte do meu sofrimento veio do fato que eu tinha de arrumar o coffee break para os candidatos. Liguei para umas 50 empresas que poderiam  oferecer o coffee break de graça, porque  não tínhamos verba. Mas, neste momento, a crise econômica já estava bem ruim e eu tive que ouvir um NÃO de todas as empresas que eu liguei e visitei. Isso foi frustrante. Para piorar nosso estresse, também descobrimos que a Rádio USP estava usando o nome que nós criamos para o nosso evento – Jornada eleitoral  – para outros eventos que eles estavam organizando  sem nos consultar! O sangue ferveu um pouco quando faltou dar crédito ao USP debate. Ainda assim, tivemos que comunicar nosso desconforto sem colocar em risco toda a parceria e decidimos fazer isso depois do evento.

Os últimos preparativos para o debate dos candidatos às eleições municipais de São Paulo.

Alguém viria?

Depois de ter feito tudo isso, nós nunca, em mil anos, imaginaríamos que o auditório enorme ia estar vazio. Os eventos com os políticos nos departmentos sempre estavam lotados.  Além disso, fizemos centenas de pôsteres e panfletos e os colamos em todos os institutos do campus.

Bruno e eu pegamos panfletos e fomos para o refeitório porque é onde esperávamos encontrar mais pessoas. Nós demos panfletos e gritamos (literalmente) sobre o evento até que tivemos que voltar porque o evento estava prestes a começar.

Pessoas chegando no evento. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens.

 

Foi perfeito.

Provavelmente não  perfeito, mas não me lembro de qualquer problema muito grave. Nós estávamos preocupados que alguns dos candidatos seriam defensivos ou que as perguntas dos estudantes seriam má-educadas, mas isso não aconteceu. Eu acho que porque nós tratamos todos de forma justa, os pequenos e grandes políticos, e deixamos claro que era um jogo justo, que todos foram gratos e respeitosos. O reitor da  também veio com uma confirmação de última hora e fez um discurso. No final de cada palestra, os candidatos receberam um peso de papel acrílico do USP | Debate que eu tinha feito à mão, um a um, na noite anterior. Então, o evento terminou e sentimos uma sensação de alívio que incomparável. Nós estávamos extremamente orgulhosos.

Nós gastamos nosso próprio dinheiro no evento e fizemos algo que teria levado uma empresa inteira e provavelmente milhares de reais. E apenas 8 pessoas fizeram isso. Eu ainda fico espantado em como conseguimos reunir os candidatos neste prédio, gravar a voz deles e transmitir pra todo o estado. E ainda assim, não tínhamos dinheiro para servir café pro prefeito de São Paulo. PS: ele era candidato pro segundo mandato e veio para o evento. PPS: Ele pediu um café.

O grupo da USP | Debate que organizou a Jornada Eleitoral. Felipe, Gabriel, eu, Bianca, Lucas, Renato, Bruno da esquerda para a direita. Henrique não está na foto. Imagem: Cecília Bastos / USP Imagens

O autógrafo dos candidatos que vieram ao Debate.

Alguns dias depois de estarmos nas nuvens, percebemos que ainda havia muito a fazer. O evento não significava que o USP | Debate seria bem sucedido de um dia para o outro. E na época estávamos tão exaustos com o evento que não usamos todos os contatos e mídia que poderíamos ter usado logo depois do evento. Eu tive que sair do Brasil e logo outros membros estavam saindo e novos estavam chegando. O debate da USP ainda tinha muito trabalho a fazer para se tornar um nome de uma instituição na universidade, mas eu  tive a sensação de que nós redefinimos o que um grupo de debate pode fazer. O grupo de debate da USP é ainda menor do que outros grupos de debates no Brasil, mas eu vi que ele ganhou nova vitalidade recentement e espero que ele cresça logo ao ponto de podermos organizar o debate presidencial um dia.

 

Coisas que fizemos bem na primeira tentativa

  • Estabelecer uma parceria com instituições da universidade, a Rádio USP e o jornal da USP,  que nos forneceram suporte legal e institucional
  • Estabelecer um contato amigável com o PR dos políticos
  • Estabelecer prazos rigorosos e reuniões com objetivos
  • Fazer uma identidade visual consistente para o evento (cartazes, panfletos, cenários, lembranças) e garantir que nossa marca USP | Debate fosse visível
  • Organizar o evento com limitações e custo ultrabaixo

Coisas que devemos melhorar para um próximo evento

  • Garantir o apoio financeiro da universidade em um estágio inicial
  • Usar outras abordagens de marketing para que mais pessoas participassem do evento
  • Durante o evento, usar qualquer alavanca possível (sem ser importuno ou persistente) com o reitor e outras pessoas da universidade para garantir mais recursos e espaço para o projeto e para os próximos eventos

Links

Web site USP | Debate

Links sobre o evento

Entrevistas com os candidatos (Youtube)

 

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